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Acabei de ler um artigo instigante do professor Carlo Ratti, diretor do MIT Senseable City Lab – cuja tradução vai além de Laboratório de Cidades Sensíveis do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts).
Nesse caso, o termo “sensível” indica que a cidade é capaz de medir (e “sentir”) a atividade humana por meio de sensores e dados.
No jornal “Financial Times”, Ratti detalha um estudo que será publicado na revista Nature Cities: como os anos após a aposentadoria podem se tornar a fase mais sociável de nossas vidas.
Estudo transcontinental mostra que pessoas acima de 66 anos têm mais encontros com grupos diversificados da sociedade Mariza Tavares E como os pesquisadores chegaram a essa conclusão? Graças ao uso dos celulares, deixamos rastros de nossos deslocamentos e atividades.
As informações mapeiam a rede de encontros entre seres humanos.
“Imagine as pessoas como partículas se movimentando no tempo e espaço.
Fizemos um levantamento dos padrões de mobilidade diária dos indivíduos, associando-os a dados socioeconômicos e à idade”, escreveu o professor.
Trata-se do primeiro estudo transcontinental a cruzar dados de 200 mil pesquisas domiciliares de mobilidade (que contêm informações socioeconômicas detalhadas e autorrelatadas) com o rastreamento por GPS.
Isso permitiu medir a “mistura social” – o encontro entre diferentes classes de renda – com maior precisão.
O trabalho, realizado em Boston, Chicago, Hong Kong, Londres e São Paulo, revela que aposentados acima de 66 anos interagem com grupos mais diversificados da sociedade do que segmentos mais jovens em idade ativa.
O padrão se repete nas cinco cidades do estudo.
Essa “mistura social”, que é intensa entre adultos jovens, tende a declinar na meia-idade, quando as prioridades se concentram em família e trabalho.
Com o passar do tempo, a rotina estreita não somente o número de lugares aonde vamos, como também a diversidade de pessoas que encontramos.
A aposentadoria remove essa barreira, abrindo espaço para deslocamentos menos previsíveis e mais diversos. Para Ratti, as cidades poderiam usar tais informações para aumentar as oportunidades de interação social.
Ele dá exemplos, como estimular espaços públicos a oferecer atividades intergeracionais.
Em Londres, sugere que os pubs seriam uma ótima opção, já que tradicionalmente reúnem diferentes gerações.
“Fundamentalmente, nossa pesquisa desafia a narrativa de que o envelhecimento populacional está relacionado a um quadro de declínio: força de trabalho encolhendo, custos crescentes, maior isolamento.
A aposentadoria costuma ser vista como um retraimento, um afastamento.
Ao contrário, pode ser uma retomada, uma reabertura”, defende.
O estudo faz parte de uma mudança no formato e abordagem das pesquisas urbanas.
Por décadas, análises quantitativas eram voltadas para os aspectos físicos da cidade: prédios, ruas, infraestrutura.
Atualmente, há uma preocupação em ampliar tal visão, incluindo as interações que dão significado a esses espaços.
O trabalho, uma parceria do MIT Senseable City Lab e da Universidade de Hong Kong, chama-se Latent patterns of urban mixing in mobility analysis across five global cities (Padrões latentes de mistura urbana na análise de mobilidade em cinco cidades globais).
Há uma versão pré-publicação neste link. Veja os vídeos que estão em alta no g1