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Hotel milionário no Ceará perde marca do Hard Rock após anos de atraso e processos
Uma obra milionária de um hotel no Ceará acumula mais de cinco anos de atraso e agora perdeu até o nome.
Em maio, a empresa Hard Rock Brazil conseguiu na Justiça proibir o uso de sua marca pela incorporadora HRH Fortaleza/Residence Club — e ganhou.
A decisão foi mais um revés no projeto luxuoso, anunciado a um custo de R$ 170 milhões, mas cujo valor real, segundo os responsáveis, ultrapassa R$ 275 milhões. O empreendimento, que deveria ter sido entregue em 2020, virou alvo de uma enxurrada de processos de clientes insatisfeitos e está sob investigação do Programa Estadual de Defesa do Consumidor do Ceará (Decon).
Um levantamento do Decon, de julho de 2025, mostrou mais 1.100 processos relacionados ao caso somente no Tribunal de Justiça do Ceará (TJCE).
Desde fevereiro de 2025, a incorporadora está proibida de vender novas unidades do projeto e perdeu o nome que impulsionou suas vendas desde o lançamento: Residence Club at The Hard Rock Hotel Fortaleza.
O projeto segue no limbo — sem prazo, sem marca e com cada vez mais clientes na Justiça.
Em documentos recentes obtidos pelo g1, a empresa fala em uma entrega em etapas, com prazos variando de 2028 a 2034.
Complexo terá que retirar símbolos da marca Hard Rock de hotel na Praia da Lagoinha, em Paraipaba (CE) Thiago Gadelha/SVM Ao Decon, a HRH/Residence Club disse que os atrasos são decorrentes das exigências do Hard Rock Brazil, da pandemia de Covid-19 e da má gestão dos antigos donos da empresa.
A empresa afirma que tem feito o possível para concluir o hotel, mas tem enfrentado desafios financeiros devido aos rompimentos de contratos, à proibição de vendas, aos custos da obra e problemas com fornecedores. Enquanto isso, muitos clientes que foram à Justiça tentam responsabilizar também a Hard Rock Brazil pelo imbróglio.
A empresa alega ter apenas cedido o nome e não ter qualquer envolvimento com as obras, mas em maio, o Decon inseriu o grupo como parte investigada no processo administrativo (não judicial) em andamento. A seguir, o g1 listou 5 pontos que ajudam a entender o caso: O anúncio do projeto e início das vendas Nome Hard Rock atraiu compradores Repetidos atrasos Briga na Justiça e novo cronograma Qual o papel do Hard Rock? 1.
O anúncio do projeto e início das vendas Maquete mostra como seria Hard Rock Hotel Fortaleza, conforme anunciado à época, e como está obra em 2026 Reprodução + Thiago Gadelha/SVM Quando foi anunciado ao público, o hotel foi apresentado como um dos dois empreendimentos que marcariam a chegada da cadeia de resorts ao Brasil.
O Hard Rock estreou no Brasil em 2015, mas apenas no segmento dos restaurantes, por meio do Hard Rock Café.
Em dezembro de 2017, o fundo Venture Capital Participações e Investimentos (VCI, que mais tarde viraria HRH) anunciou publicamente que havia conseguido o licenciamento da rede norte-americana para abrir os hotéis no Brasil.
As duas primeiras unidades eram o Hard Rock Fortaleza, que apesar do nome está localizado na Praia da Lagoinha, no município de Paraipaba, a cerca de 100 quilômetros da capital cearense; e o Hard Rock Ilha do Sol, em Londrina (PR).
A aquisição previa a operação no conceito de multipropriedade, no qual o comprador adquire uma "parte" do imóvel.
O negócio ia funcionar assim: a brasileira HRH/Residence Club iria se responsabilizar pela construção e pela venda; o Hard Rock emprestaria o nome para atrair clientes e, uma vez com o hotel pronto, iria administrá-lo; os compradores iriam adquirir uma “fração” do imóvel, que daria direito a utilizar o espaço por duas semanas no ano. A estrutura prevista era de um grande complexo à beira-mar, formado por 228 apartamentos, unidades "two bedroom" e casas de até 536m², lojas, piscinas, spa, quadras, bar, restaurante e área de eventos.
Ao todo, estavam disponíveis para comercialização 639 unidades.
O grupo estimou que o empreendimento tinha um potencial de valor de vendas de R$ 750 milhões e a obra tinha investimento de R$ 170 milhões.
A construção começou no fim de 2017 e as vendas em junho de 2018.
🔎 Ainda em 2018 foi anunciada a abertura do Hard Rock Café em um shopping de Fortaleza – a loja também era licenciada pela VCI.
O grupo, então, chegava ao estado com força.
2.
Nome Hard Rock atraiu compradores O Residence Club at The Hard Rock Hotel Fortaleza ocupa um espaço de frente para o mar na Praia da Lagoinha (CE). Thiago Gadelha/SVM Conforme documentos obtidos pelo g1, ao longo de anos de comercialização, a incorporadora fechou mais de 18 mil contratos de venda sob o formato de fração.
Alguns clientes compraram apenas uma fração; outros compraram dezenas.
O valor da fração variava conforme a unidade comprada e o ano de venda, mas as mais baratas custavam, em média, R$ 40 mil. Cada fração daria direito ao proprietário a duas semanas por ano de uso do espaço.
O dono poderia usufruir as semanas no Hard Rock Fortaleza, alugar o período para terceiros ou mesmo escolher aproveitar as semanas em outros resorts do Hard Rock pelo mundo.
Esta última vantagem foi considerada determinante para grande parte dos compradores, como relata o bancário paulista Aníbal Rodrigues.
Ele comprou uma fração no empreendimento em julho de 2019, enquanto estava de férias no Ceará.
Aníbal conta que foi abordado por vendedores na avenida Beira-Mar de Fortaleza, que lhe ofereceram um jantar em restaurante enquanto apresentavam a proposta.
O bancário gostou da associação ao Hard Rock, não só pela possibilidade de ter uma estada garantida no litoral do Ceará, mas pela perspectiva de ter um investimento – para alugar, por exemplo - associado a uma das mais conhecidas marcas de hotelaria do mundo.
“O que foi fundamental foi o nome Hard Rock.
Porque a gente já conhecia a marca, a gente sabia da força que eles tinham em outros empreendimentos no mundo todo.
E como eles estavam expandindo aqui no Brasil, inclusive tinha mais um outro empreendimento em andamento [o Hard Rock Ilha do Sol, também da HRH], então a gente fechou por causa do nome” À época, a fração comprada por Aníbal custou R$ 46 mil.
A primeira parcela foi paga poucos dias depois de fechar negócio e o contrato foi assinado em julho de 2019 com previsão de entrega para dezembro de 2021.
Seis anos depois da assinatura, em maio de 2025, Aníbal pagou a última parcela.
No mesmo mês, ele se juntou aos milhares de compradores que acionaram a Justiça contra a incorporadora em busca de reaver o dinheiro pago por um bem que não têm previsão de receber.
3.
Repetidos atrasos Obras do Hard Rock Hotel Fortaleza se arrastam há anos e clientes tentam romper contratos. Thiago Gadelha/SVM A previsão inicial era de que o empreendimento fosse concluído até dezembro de 2020, com a possibilidade de atraso de 180 dias, isto é, até junho de 2021.
Hoje, cerca de 9 anos após o início das vendas, a construção ainda caminha com lentidão.
Há funcionários no local, mas em quantidade e em ritmo que, conforme o Decon, não permite vislumbrar “proximidade da conclusão, uma vez que poucos setores estão em execução”. Em outubro de 2021, a empresa aditou o contrato, prometendo entregar o hotel até 31 de dezembro de 2022.
Em 2023, em 2024 e em 2025, novos aditivos, novos atrasos.
“A gente achou que os meios auditivos de adiamento fossem por causa da pandemia, um fato de toda essa paralisação que teve por causa da pandemia.
Mas, passada a pandemia, a gente percebeu que as coisas não estavam andando”, relembra o bancário Aníbal, um dos investidores.
“Eles passavam informes de evolução, como se o empreendimento estivesse evoluindo dentro do esperado.
Ficavam disponibilizando visitas ao local, mas a gente de outro estado como ia fazer para visitar o empreendimento?” Os primeiros atrasos levaram o Decon a multar o empreendimento em R$ 12 milhões, em janeiro de 2024.
Em novembro do mesmo ano, diante do elevado número de reclamações, o órgão abriu um novo procedimento administrativo para investigar a situação.
Durante as duas visitas físicas ao local, a equipe do Decon constatou que nenhuma parte do empreendimento estava pronta e que mesmo aquelas mais avançadas precisavam de reforço estrutural.
Na segunda visita, apenas 70 pessoas trabalhavam no local – e parte delas no administrativo (veja fotos abaixo).
Fiscalização do Decon constatou várias partes da obra inacabadas e quantidade de funcionários considerada abaixo do necessário para concluir Hard Rock Hotel Fortaleza Decon Ceará Em resposta ao Decon, a HRH afirmou que a pandemia de Covid-19, em 2020, trouxe diversos obstáculos à execução da obra, como a falta de mão de obra e a escassez de insumos da construção civil.
Além disso, a empresa culpa a Hard Rock por fazer tantas exigências na construção que atrapalharam o andamento das obras.
“[A] exigência de padrões internacionais culminou com a participação da referida marca nas definições de projetos arquitetônicos, gestão de recursos, gerenciamento de cronograma de obras, escolha de construtoras, parcerias de negócio, fornecedores, dentre outras decisões de contratações e decisões operacionais, tudo isso sem conhecer a fundo a realidade do mercado brasileiro”, disse a HRH em manifestação.
📌 Em 2021, mesmo com os atrasos, o grupo anunciou um novo empreendimento no destino turístico mais badalado do Ceará: o Residence Club at The Hard Rock Hotel Jericoacoara.
A previsão de entrega é 2028, mas as vendas estão suspensas pela própria empresa. 📌 Em dezembro de 2023, o antigo dono da VCI vendeu sua parte na empresa.
Os novos donos assumiram no início de 2024 e mudaram o nome do grupo para HRH Fortaleza.
Eles disseram que a gestão anterior "subestimou dolosamente o custo total da obra", orçada inicialmente em R$ 275 milhões, mas que, conforme os novos administradores, teria na verdade um custo de R$ 1,17 bilhão. 📌 Em 2024, a obra já estava atrasada há três anos e muitos clientes já questionavam se o projeto seria concluído.
Outro acontecimento pôs mais incerteza sobre a situação: no fim de 2024, o Hard Rock Café em Fortaleza fechou as portas.
4.
Briga na Justiça e novo cronograma Com os atrasos e a incerteza, parte dos clientes decidiu parar de pagar as parcelas.
Nestes casos, a HRH Fortaleza passou a notificar esses consumidores, ameaçando rescisão contratual e atribuindo-lhes a culpa pelo rompimento – o que, pelo contrato, permitiria ainda a cobrança de multa.
A partir daí, só cresceu a disputa judicial, em 2025, a HRH afirmou ao Decon que dos 18.708 contratos de vendas: 10.606 ainda estavam ativos 8.102 (43%) foram cancelados: a maior parte por vias amigáveis (acordos) e outra parte por processos administrativos ou judiciais Desde novembro de 2024, o advogado Magno Aguiar e seu escritório, em Fortaleza, têm recebido casos contra o Hard Rock Hotel.
Conforme Aguiar, ele tem atualmente cerca de 300 processos de clientes contra o empreendimento.
Aguiar afirma que, em levantamento online, o seu escritório encontrou mais de 3.700 processos contra a HRH e o Residence Club por todo o Brasil, relacionados a...