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Luiz Melodia (1951 – 2017) em foto da capa do álbum de 1973 dissecado no livro (à direita) de Márcio Pinheiro
Reprodução / Montagem g1
♫ CRÍTICA DE LIVRO
Título: O livro do disco – Pérola negra – Luiz Melodia
Autor: Márcio Pinheiro
Cotação: ★ ★ ★ 1/2
♬ “Um disco nunca começa na primeira faixa”.
A sentença dada pelo jornalista Márcio Pinheiro na abertura do livro em que discorre sobre o primeiro álbum de Luiz Melodia, “Pérola negra”, é a senha para o entendimento da narrativa do livro, o mais recente volume da série “O livro do disco”.
Em vez de dissecar o álbum de 1973 no habitual faixa-a-faixa da série da editora Cobogó, o autor optou por contextualizar a criação do álbum “Pérola negra” – marco inaugural e pedra fundamental da discografia de Luiz Carlos dos Santos (7 de janeiro de 1951 – 4 de agosto de 2017), vulgo Melodia – na cena de contracultura que pulsava nas vias marginais da cidade do Rio de Janeiro (RJ) no início dos anos 1970.
Prefaciado por Antonio Carlos Miguel, jornalista e crítico musical que vivenciou essa cena marginal, o livro parte de um acontecimento em São Paulo (SP) – a prisão de Waly Salomão (1943 – 2003) no início de 1970 por porte de drogas – para chegar na efervescência cultural carioca que gerou “Pérola negra” três anos mais tarde.
Talvez o álbum não tivesse tido os caminhos abertos com tanta facilidade se intelectuais como Waly, o artista plástico Hélio Oiticica (1937 – 1980) – o primeiro a se encantar com a música de Melodia, como ressalta Márcio Pinheiro – e Torquato Neto (1944 – 1972) não tivessem subido literalmente o morro.
No caso, o Morro de São Carlos, no Estácio, celeiro de bambas onde Luiz Carlos dos Santos se criou antes de virar Luiz Melodia.
No morro, além de maconha, Waly e Oiticica encontraram um artista singular, com obra autoral de grande personalidade.
Luiz era esse artista.
O ponto de virada na carreira do cantor, compositor e violonista carioca foi a inclusão da canção “Pérola negra” – originalmente intitulada “My black, meu nego” – no show “Gal a todo vapor”, estreado por Gal Costa (1945 – 2022) em outubro de 1971.
Waly apresentara Melodia a Gal, que se encantou com a música. O show de Gal virou sensação, assim como a balada bluesy do compositor debutante, e foi perpetuado em LP duplo ao vivo lançado no fim daquele ano de 1971 com o nome de Luiz Melodia pela primeira vez nos créditos de um disco.
Como consequência, a mesma gravadora que editou o álbum ao vivo de Gal, a Philips, contratou Luiz Melodia em 1972 no rastro do burburinho provocado pelo show de Gal, pela participação do cantor a no show “A fina flor do samba” – estreado em janeiro de 1972, com menções honrosas ao estreante na imprensa carioca – e pela posterior gravação por Maria Bethânia do samba-canção “Estácio, Holly Estácio” (1972), outra pérola de Melodia, apresentada por Bethânia no álbum “Drama – Anjo exterminado” (1972).
Veio então o primeiro álbum de Luiz Melodia.
E o resto foi uma história que mostrou que Melodia não se enquadraria na norma industrial que impunha o samba aos negros vindos do morro.
Gravado sob a direção musical de Perinho Albuquerque (1946 – 2025), guitarrista que fez os arranjos de nove das dez faixas, o álbum “Pérola negra” tinha samba, mas também blues, rock, soul, choro, baião, fox e iê-iê-iê romântico da Jovem Guarda – tudo junto e misturado, amalgamado em saboroso coquetel rítmico que, 53 anos o lançamento do LP em junho de 1973, conserva o mesmo frescor.
Contudo, essa mistura fina foi alvo de pré-conceito antes mesmo do lançamento do álbum, como lembra Márcio Pinheiro ao mencionar crítica do jornal “Folha de S.
Paulo” em que a fusão de Melodia foi caracterizada como “batida indigesta”.
Isolada, a maledicência teve pouco eco, como reconhece o próprio autor.
Ao discorrer brevemente sobre cada uma das 10 músicas do álbum, Pinheiro lembra que “Pérola negra” poderia ter chegado às lojas com 12 faixas se a censura não tivesse vetado as músicas “Feras que virão” e “Feto, poeta do morro”.
Com 10 ou 12 músicas, como o próprio Luiz Melodia caracterizaria posteriormente em entrevista, “Pérola negra” é álbum que reúne crônicas urbanas escritas pelo coração partido de um jovem de então 22 anos.
A musa do disco teria sido Deda, ex-namorada de Waly Salomão com quem Melodia teve breve, mais marcante, caso de amor.
No epílogo do livro, Márcio Pinheiro monta breve painel cronológico da carreira de Luiz Melodia após “Pérola negra”, a começar pela recusa do cantor de gravar um segundo álbum somente como intérprete e dedicado ao samba – proposta (indecorosa para um artista que tinha brilhado tanto como compositor no primeiro álbum) feita pela gravadora Philips com a esperança de que este disco de intérprete surtisse o efeito comercial que “Pérola negra” não surtiu, por mais que tivesse sido recebido com elogios entusiasmados na imprensa musical.
Indomado, Luiz Melodia saiu da gravadora e, a partir daí, seguiu carreira oscilante, com altos e baixos de popularidade, mas sem perder a liberdade que o guiou até a saída de cena, há nove anos, com “Pérola negra” já devidamente eternizado no panteão dos melhores álbuns da música brasileira em todos os tempos.