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Site dos coaches que venderam curso para homens
Reprodução
A Justiça Federal condenou a 17 anos e 6 meses de prisão em regime fechado o coach norte-americano Mark Thomas Firestone e o brasileiro Fabrício Marcelo Silva de Castro Junior por envolvimento em um esquema de exploração sexual de mulheres durante evento realizado no bairro do Morumbi, na Zona Sul de São Paulo.
A decisão foi proferida na segunda-feira (6) pelo juiz federal Caio José Bovino Greggio, da 4ª Vara Criminal Federal de São Paulo.
Ainda cabe recurso. Em 2023, o g1 revelou que coaches estrangeiros promoveram uma festa em uma mansão para usar mulheres como “cobaias” para alunos de um curso de conquista que custava de US$ 12 mil a US$ 50 mil.
O caso foi comunicado à Polícia Federal pela Embratur (Agência Brasileira de Promoção Internacional do Turismo), dando início às investigações (veja mais abaixo). Com a abertura do inquérito, Mark Thomas Firestone, que também se apresentava como David Bond e Steven Mapel, além de Fabrício Marcelo Silva de Castro Junior e o chinês Ziqiang Ke, conhecido como Mike Pickupalp, se tornaram réus em uma ação da 4ª Vara Criminal Federal de São Paulo em 2024. Segundo a decisão do magistrado, ficou constatado que Mark e Fabrício atuaram na organização de encontros ligados ao grupo “Millionaire Social Circle”, divulgado como um curso de desenvolvimento pessoal voltado a homens estrangeiros. Conforme o processo, o grupo promovia jantares e uma festa com o objetivo de induzir mulheres jovens a situações de exploração sexual, por meio de promessas indiretas de vantagens econômicas, status social e relacionamentos afetivos. Ao condenar os réus, o juiz federal Caio José Bovino Greggio afirmou que ficou comprovado que as mulheres foram atraídas e induzidas a um ambiente previamente planejado para favorecer contatos de natureza sexual, o que caracteriza exploração mesmo sem pagamento direto. Na sentença, o magistrado destacou que houve atuação deliberada e organizada: “Agindo com ardil, induziram e atraíram as vítimas a este esquema transnacional de exploração sexual.” Conforme a decisão, o norte-americano atuava como um dos líderes do grupo e instrutor do curso, utilizando diferentes identidades.
Já o brasileiro, que se apresentava como “mentor de homens”, foi apontado como responsável por parte da logística, incluindo a locação do imóvel, contratação de serviços e organização do evento. A Justiça também considerou que o esquema atingiu ao menos sete vítimas e envolveu prática reiterada de crimes, o que levou ao aumento da pena. Os dois foram condenados pelos crimes de exploração sexual (art.
218-B) e favorecimento à prostituição (art.
228).
Além da prisão, foi fixado o pagamento de 24 dias-multa. O juiz determinou ainda a manutenção da prisão preventiva do brasileiro, citando risco de fuga.
O norte-americano poderá recorrer em liberdade.
Terceiro réu O chinês Ziqiang Ke não foi julgado neste processo.
Segundo a decisão, ele não foi localizado, teve o caso desmembrado e o processo está suspenso. O que dizem os condenados A defesa de Fabrício Marcelo Silva de Castro Júnior afirmou que a sentença “não reflete a realidade dos autos". “A sentença não reflete a realidade dos autos, um julgamento pautado por um moralismo incompatível com o processo penal, temos a mais absoluta certeza de que não há materialidade alguma, por isso o juízo teve que recorrer a ad hominem.
Sem dúvidas iremos recorrer para corrigir mais essa injustiça promovida pelo judiciário”, afirmou Nairo Bustamante Pandolfi. Já a defesa de Mark Thomas Firestone declarou que recebeu a decisão “com inconformismo” e apontou supostas fragilidades nos fundamentos da condenação. "A defesa recebeu a sentença com inconformismo e manifesta sua divergência em relação aos fundamentos da decisão condenatória, por entendê-los juridicamente frágeis e dissociados do conjunto probatório dos autos.
Informa que adotará, com rigor técnico, as medidas recursais cabíveis para a sua integral reforma.
Por fim, alerta que a decisão não possui caráter definitivo, impondo-se a observância do princípio da presunção de inocência até o trânsito em julgado da decisão", afirmaram os advogados Mauricio Ejchel e Ana Carolina Moreira Santos" Relembre o caso 'Não fui obrigada, mas fui aliciada, manipulada para estar ali', diz uma das mulheres usadas como 'cobaia' por coaches para curso de pegação Fabrício, Ke e Mark se tornaram réus em uma ação da 4ª Vara Criminal Federal de São Paulo.
O trio era investigado desde uma festa em uma mansão no Morumbi, Zona Sul da capital paulista, em fevereiro de 2023, que fazia parte de um curso em que estiveram presentes garotas adolescentes. O evento foi promovido por Mike Pickupalpha e Mark, do site Millionaire Social Circle ("Círculo Social de Milionários").
O contrato de locação do imóvel foi assinado por Mike e o brasileiro Fabrício Castro, que também chegou a receber R$ 5.950 em auxílio emergencial na pandemia de Covid-19 enquanto vendia cursos. Entre vítimas de 17 a 24 anos e testemunhas, 17 pessoas foram ouvidas pelo 34º DP de São Paulo, que investigou o caso.
Adolescentes em mansão Procurado pelo g1 na época, o pai de uma jovem de 17 anos reconheceu a filha dele em imagens feitas na festa.
A garota confirmou à família ter conhecido pela internet Mike Pickupalpha, um dos mentores, saído com ele e viajado. A presença dela na festa foi mostrada pelo Fantástico, e o pai conversou com o g1.
Sobre a festa, a jovem contou que "não queria que fosse gravada e não queria tirar fotos".
Os dois apareceram em um vídeo comendo comida japonesa, que foi postado no perfil do curso, e abraçados numa praia.
Outra menina menor de idade, conforme apurado pelo g1, esteve na festa a convite de uma amiga maior de idade.
A então adolescente consumiu bebida alcoólica e saiu com um dos alunos.
A relação foi consensual, mas ela não sabia que o grupo fazia parte de um curso de conquista. No site Millionaire Social Circle, todos os textos e as fotos relacionadas com as viagens por países como Costa Rica, Colômbia e Filipinas, que chegaram a ser tirados, retornaram.
O site, no entanto, voltou sem o clipe do programa no Brasil. Site voltou com clipes das viagens aos outros países Reprodução Inquérito policial Ao menos duas mulheres registraram na Polícia Civil de São Paulo que conheceram "alunos" dos coaches pela internet, foram a um jantar em grupo e dias depois estiveram na festa.
Nas duas situações, foram feitos vídeos usados em peças publicitárias do curso sobre como conquistar mulheres, segundo elas.
Os organizadores negaram que os registros foram para publicidade. As duas jovens e outras duas ouvidas pelo g1 afirmaram que não sabiam que o grupo estrangeiro participava de um curso (veja abaixo os relatos). Mike já apareceu em canais no Youtube filmando mulheres com câmeras aparentemente escondidas em diversos países.
Já David Bond dizia ser um especialista em namoro online e produtor de conteúdo digital.
O curso Anúncio no site dos coaches antes de ser apagado Reprodução O curso, oferecido a estrangeiros de vários países, cobrava a partir de US$ 12 mil (cerca de R$ 63 mil) em troca de consultoria de conquista e viagem de duas semanas para algum país.
Além do Brasil, houve edições na Costa Rica (em fevereiro de 2022), Colômbia (julho de 2022) e Filipinas (agosto de 2022).
O pacote com seis países, chamado de World Tour, saía por US$ 50 mil (cerca de R$ 262,7 mil), segundo o site do grupo.
“Venha explorar com David e Mike e conheça as mulheres brasileiras ao redor do mundo que são conhecidas por serem divertidas, curvilíneas e apaixonadas”, disse o anúncio da viagem ao Brasil. Em um vídeo, a dupla exibia o kit a ser levado na bagagem: pílulas do dia seguinte, usadas para evitar gravidez em relações sexuais sem preservativo, camisinhas e perfumes com feromônios — que supostamente secretariam substâncias para chamar atenção das mulheres. O que disseram as mulheres Festa realizada em mansão de São Paulo Arquivo A mulher que registrou o boletim de ocorrência disse ter visto vídeos publicados em que ela aparecia com os alunos da "mentoria" de conquista.
Foi o que a fez querer denunciar.
Ela disse ter conhecido um rapaz no Tinder e foi convidada a jantar com "amigos" dele. “Saímos algumas vezes até ele me convidar para o jantar, que me disse que seria com amigos deles.
Foi normal [o jantar] e conversamos sobre assuntos tranquilos, até porque eu queria praticar o inglês.
Ficavam filmando o tempo todo e eu tentava me esquivar porque não gosto que me filmem”, lembrou. No dia seguinte, a brasileira foi convidada pelo homem para a festa na mansão. “Na festa tinha muitas mulheres e nem todas sabiam falar inglês.
Havia funcionários, DJ, garçons.
Uma das mulheres me disse que foi [à festa] por causa de um anúncio e aí achei estranho, porque ela disse que pagaram o transporte também.
Eu achei que era algo mais reservado." A outra mulher que foi à festa na mansão também conheceu pelo Tinder o homem que a chamou.
Ela disse que deu "match" com um americano e foi convidada para jantar.
O rapaz contou que fazia parte de um grupo de negócios e a convidou para um primeiro encontro.
Lá, afirmou, havia outras mulheres que estavam com os "amigos" dele.
Ela não sabia, mas eram outros alunos do curso. “Conheci outras meninas brasileiras lá e até gostei, porque eu não sei muito bem inglês.
Era um restaurante muito chique, até exagerado.
O rapaz que eu saí me tratou muito normal, bem de início, criando um vínculo.
Tinha gente de vários países.
Não me senti desconfortável naquele momento.” Coaches dizem estar orgulhosos do grupo que esteve no Brasil Reprodução O encontro foi antes da festa.
Dias depois, ela recebeu um convite para colocar dados pessoais e fazer parte da lista do evento. “Não fiquei até o fim da festa.
Interagi mais com a meninas que conheci no jantar, mas conheci uma menor de idade que disse que conhecia pessoas na organização.
Disse que logo faria 18 anos, mas estava numa festa de comida e bebidas à vontade.
Não a vi ficando com ninguém, mas disse que se sentiu incomodada ao ter visto um casal fazendo sexo em um dos quartos.” O que disseram 'Mike' e 'David' antes Vídeo feito antes da viagem ao Brasil Reprodução Mike Pickupalpha falou com o g1 em março de 2023.
Questionado mais de uma vez se informava as mulheres de que a festa era uma aula prática do curso de conquista, não respondeu.
“Foi uma festa coorganizada com meus amigos brasileiros.
Alguns trouxeram suas próprias namoradas.
Uma festa com adultos que escolheram estar lá por livre e espontânea vontade.
Comida, segurança e transporte adequado foram fornecidos.” Questionado sobre menores de idade no evento, o coach não negou, mas disse possivelmente haver câmeras de segurança no local.
“No formulário de candidatura dissemos que era preciso ter mais de 18 anos e pedimos à segurança para fiscalizar e fiscalizar todos.” Convite enviado para cadastro para a festa em São Paulo Reprodução Confira a íntegra da nota de Fabrício na época do indiciamento: "A partici...